• Gustavo Goulart

Breve História do Kendo

O Kendo moderno possui ancestralidade nas formas de Koryu do Kenjutsu, a antiga arte da espada utilizada pelos samurais. Entretanto, ainda mais que isso, o Kendo nasce a partir do Gekiken, uma forma de combate competitivo iniciada no final do período Edo, pouco antes da Restauração Meiji.


A a proliferação acentuada de ryu (escolas) centradas na esgrima acontece a partir do estabelecimento do Tokugawa Bakufu em 1603, cada escola possuía sua própria visão de mundo, essência espiritual e teorias sobre o combate. Um exemplo destas escolas é o Jigen Ryu, fundado por Togo Bizen no Kami (1563-1643), que se tornou uma importante tradição marcial para os guerreiros da região de Satsuma.


Com o decréscimo do número de batalhas campais durante o período Tokugawa, visto que o país entrava em um período de paz quando comparado aos períodos anteriores, o contexto e formato com o qual se abordava a prática da esgrima se modificava. Isto é, o enfoque técnico se transportava do campo de batalha para as situações do cotidiano. Neste sentido, Draeger aponta uma mudança estratégica entre Kobo-itchi (um pensamento estratégico de que a defesa e o ataque são um só), e o aspecto tático menos agressivos de suki wo mitsukeru (observar e tomar vantagem de uma fragilidade na defesa do adversário. O autor ainda cita Yagyu Jubei (1607-1650) que descrevia sua frustração e remorso em perceber o crescimento em popularidade do segundo estilo.


Observa-se também, como um aspecto de desenvolvimento da sociedade japonesa neste período, o incentivo da classe guerreira às atividades artísticas, além disso uma valorização de aspectos estéticos. A eficácia é sobrepujada pela eficiência técnica, não basta mais atingir o resultado, o critério da boa demonstração técnica vem acompanhada de graça e dignidade.


Na metade do século 18 existiam, regra geral, 3 métodos de treinamento com a espada disponíveis: o treino com a katana real, o treino com o bokken e, o treino com a shinai. Cresce ao final do período Edo o modelo de disputa de Shinai-Shiai, que acabou por substituir outros métodos de Taryu-jiai (desafios entre escolas) que utilizavam outros tipos de espada. Isso se deve em grande parte pelo fato de que, os desafios com a espada de bambu, ainda que vigoroso, não era tão letal como os outros métodos. Não somente isso, combates com espada reais requeriam autorização prévia do Shogunato, o que fazia com que o Shinai-shiai fosse mais conveniente para o teste de combate entre escolas.


O uso mais antigo da Shinai é creditado a Hikida Bunguro (1537-1606) criador do Hikida Ryu. Os primeiros usos do treinamento com Shinai (Shinai-geiko) tinham como propósito ser uma forma de treinamento rigoroso sem a grande incidência de lesões. A evolução deste método continuou. Desenvolveram-se em estilos posteriores, como o Jikishin-Kage Ryu, equipamentos de proteção. É creditado a Nakanishi Chuta (1715), que treinou o estilo Ono-ha Itto Ryu, a criação do mune-ate (hoje chamado Dô) quando desenvolveu seu estilo próprio o Nakanishi-Ha Itto Ryu.


A partir do século 19 a prática do Shinai-geiko (treinamento utilizando shinai e equipamentos de proteção) ganhou grande popularidade, não somente entre a casta dos samurais, como também entre outras camadas da sociedade. O Gekiken como forma de desafio entre escolas, indivíduos, e atração se tornou reconhecido e popularizado. Assim, o treinamento para competição se tornou cada vez mais proeminente entre os dojos de Kenjutsu. O embate entre os tradicionalistas e o novo modelo de treino se acentuava, sendo que os primeiros diziam que o treinamento com proteção não era capaz de simular um combate real, e que o treinamento em Kata ainda era o mais indicado para um espadachim. Vencer nesse tipo de combate, diziam eles, não era o mesmo que vencer em um combate real.


"Oishi Susumu (1798-1865) foi o mestre mais forte do shinai-shiai em Kyushu. Originalmente treinado no Shinkage Ryu, Oishi criou seu próprio estilo e fundou o Oishi Shinkage Ryu. Ele era um homem alto e poderoso. Sua técnica especial com o shinai era o kata-zuki, uma ação de uma mão, poderosa o suficiente para atordoar sua vítima. Oishi estava preocupado principalmente em obter o ponto da disputa e é o melhor exemplo de como uma ênfase excessiva no treinamento para Shiai pode levar à perda de valor espiritual. " -Modern Bujutsu & Budo: The Martial Arts and Ways of Japan, Donn F. Draeger

Após a restauração Meiji, a fundação da Dai Nippon Butokukai em 1895 gerou importantes contribuições para o desenvolvimento e manutenção dos estilos de artes marciais do Japão. Estes caiam em desuso, e eram substituídos por práticas ocidentais na sociedade moderna que se construía. A manutenção do shinai-geiko da era passada, sob o nome de Gekiken foi uma das contribuições desta entidade neste período. Daí advém o Kendo, que era o termo mais utilizado pelas instituições de ensino ,e foi um termo adotado posteriormente também pela Dai Nippon Butokukai e pelo Ministério da Educação. Em conjunção com o Judo, que possui desenvolvimento histórico muito semelhante apesar de ter suas raízes no Jujutsu, o Kendo encontrou seu espaço como uma nova modalidade, se adaptando às novas exigências do período Meiji. Tornou-se matéria de educação física nas escolas japonesas, e passou a centrar sua prática no desenvolvimento do caráter, e na promoção de uma vida mais virtuosa.


Observando-se o Budo Kensho estipulado pela Nippon Budo Kyougikai e explicado em um post anterior em nosso blog, podemos perceber como o Kendo abarca os artigos propostos da prática do Budo moderno.


"As técnicas de Kendo seguem a doutrina de ju-go-awase, ou combinando "suavidade" com "dureza" em todos os aspectos do escopo. Através do ju-go-awase, o kendo se torna um sistema altamente eficiente para a integração da energia humana. Assim, o Kendo se torna uma extensão da teoria técnica da arte da espada, como aparece nos estilos clássicos de kenjutsu e kendo. Uma vez que essas fontes mais antigas de esgrima influenciaram grandemente as técnicas modernas de kendo, é claro que deve haver certas considerações importantes subjacentes a essa influência; foram necessárias numerosas modificações na técnica clássica para criar as modernas técnicas de Kendo. Essas modificações são indicativas da mudança da esgrima como usada no combate, para seu uso no nível da disciplina espiritual e do esporte." - Modern Bujutsu & Budo: The Martial Arts and Ways of Japan, Donn F. Draeger

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