• Gustavo Goulart

Iemoto e a Hierarquia Tradicional

A maior parte das escolas ligadas às artes marciais japonesas direta, ou indiretamente, utiliza um número de ritualísticas encontradas na sociedade japonesa. Muitas vezes, esses gestos e práticas são realizados de maneira quase que robótica, uma imitação, realizada sem nenhum significado. Da mesma forma, a relação muitas vezes estabelecida entre professor e aluno parece querer imitar sua contraparte japonesa, ainda que não estejamos praticando no Japão.


Enquanto no Aikido a ritualística é bastante enfatizada, por vezes em artes como o Judo, por exemplo, que já se tornou uma prática esportiva, os aspectos tradicionais do Budo são realizados por rotina, e não somente isso, estes aspectos culturais não são discutidos, tornando-se mera obrigação dentro da sessão de treinamento.


No caso do Jiu Jitsu Brasileiro existe algo ainda mais curioso. Ao abrirmos o livro de Helio Gracie, o Grande Mestre já dizia que quaisquer fossem os resquícios culturais japoneses na arte brasileira, eles seriam meramente utilitários. Isso, resumia ele com os seguintes exemplos: o “kimono” continua a ser usado por sua praticidade e resistência durante o treinamento, no entanto a reverência japonesa pode ser substituída por um aperto de mão. Curiosamente mais recentemente uma inversão vem acontecendo, como no caso do “OSS” que virou jargão corrente nas academias do Brazilian Jiu Jitsu. Me pergunto muitas vezes até que ponto aqueles que, de forma excessiva, falam Oss a todo momento no Dojo realmente sabem do que se trata. Mas essa discussão será para um outro momento.


Nesse post, irei me debruçar sobre a relação entre professor e aluno nas artes marciais japonesas. Para isso escrevo sobre o sistema Iemoto de hierarquia,e como foi retratado por alguns autores preocupados com o aspecto sociológico desse sistema na prática das artes marciais.


A palavra Iemoto (家元) é formada por dois caracteres, o primeiro ideograma significa casa, família; já o segundo significa começo, origem. Iemoto é normalmente usado para descrever o “cabeça” de uma organização tradicional. Seja ela uma tradição nas artes marciais, ou de cerimonia do chá. O Iemoto pode ainda ser chamado de Soke (宗家) ou ainda outras denominações. Independentemente da denominação escolhida, e simplificando na medida do necessário, o importante de se entender é que se trata de um sistema de legitimação tradicional, em que a autoridade é exercida pelo Iemoto sobre os membros de uma tradição. Aqueles certificados a repassarem este conhecimento o fazem com uma autoridade “emprestada” pelo Iemoto.


Toshio Saeki explica as quatro características do sistema Iemoto em seu trabalho The conflict between Tradition and Modernization in a Sport Organization: A Sociological Study of Issues Surrounding the Organizational Reformation of the all Japan Judo Federation da seguinte forma:


1. A relação entre professor e aluno, em que o estudante não pode questionar a interpretação das lições ou trocar de professores. Antes de ser reconhecido como um aluno, deve-se passar por um período como aprendiz até ser aceito dentro do grupo pelo professor. Com essas posições bem estabelecidas, vem o dever do professor em proteger o aluno, e o dever do aluno de servir o professor.


2. A contínua hierarquia consiste em uma transmissão contínua e hereditária do Iemoto para seus descendentes. É importante notar que, além de seus descendentes sanguíneos, o sistema Iemoto comporta o “pseudo-parentesco”, em que os alunos são tratados, como membros de uma família. A autoridade é adquirida com a passagem do tempo, aqueles que tem o poder de decisão serão sempre os veteranos do grupo.


3. O poder e a autoridade do Iemoto são incontestáveis. Parte dele as decisões sobre os caminhos que o estilo deve seguir, e cabe a ele intermediar os conflitos entre os seus representantes. Além disso, cabe a ele manter a tradição do estilo, sua ideologia, e outorgar graduações.


4. Como falado anteriormente, a característica de “pseudo-parentesco”. Os membros se tratam com uma proximidade familiar. A relação entre professor e aluno é vista como equivalente à relação de pai para filho.


Após o entendimento destas características do sistema Iemoto, é importante lembrar que hoje, mesmo no Japão, não são todas as artes marciais que conseguem, ou mesmo tentam, manter este sistema tradicional por completo.


Com o advento da modernidade, e no Japão ainda que tardia com a restauração Meiji, sistemas burocráticos de legitimidade e autoridade suplantaram os sistemas tradicionais. Isto é evidenciado pelo número de federações locais, nacionais e internacionais que compõem hoje os organismos institucionais que tomam a decisão do caminho que deve ser trilhado por essas modalidades. As decisões sobre graduações, quem serão os comandantes e líderes, não passam mais pela decisão centralizada do Iemoto, mas pela legitimidade legal dos regulamentos das federações.


Não é somente isso, o sistema atual em que as aulas de artes marciais são vendidas como um produto, sugerem uma dificuldade ainda maior de manter este modelo antigo no estilo de vida moderno. A obrigação do Iemoto em proteger o aluno, e isto querendo dizer, inclusive, de forma financeira, entra em conflito direto com a necessidade de fornecer um serviço no sistema de mercado que vivemos hoje. O valor percebido pelo cliente se torna importante para o pagamento do aluguel no final do mês.


Superando essas expectativas, o sistema Iemoto ainda é utilizado em diversos caminhos no Japão. E mesmo em outros países por professores que se dizem “tradicionalistas”. Ainda é forte sua influência, por exemplo, nas tradições de cerimônia do chá, ou mesmo no Sumo profissional.

Para citar um último exemplo, o sistema tradicional pelo qual funcionam as escolas de treinamento de Sumo me parece que dificilmente conseguiriam ser reproduzidas com sucesso no ocidente. Além das características citadas anteriormente nesse post, os atletas vivem todos na escola, saindo somente quando se casam. Mesmo a esposa do dono da escola está inserida como autoridade no formato hierárquico. Baseando-se no modelo tradicional, a esposa, assim como os outros “membros”, tem suma importância na manutenção dessa hierarquia, explica Oinuma e Shimpu:


“A dona da casa exerce uma autoridade informal sobre a vida dos Rikishi em outros assuntos além daqueles relacionados ao Sumo. Ela é responsável por seu bem-estar econômico. Todos os dias, ela dá uma certa quantia de dinheiro ao líder de um grupo de tarefas para comprar material para cozinhar. Quando um Rikishi quer emprestar dinheiro, deve fazê-lo com a dona da casa. A dona da casa provém roupas e roupas de cama diariamente. Ela cuida das roupas de todos os Rikishi constantemente. [...] Quando o Rikishi fica doente, ela cuida deles. [...]”

Estes autores assim concluem seu trabalho sobre as relações dentro da escola de Sumo:


“Na escola de treinamento de sumô, que é uma organização tradicional, os princípios subjacentes são a antiguidade e a fraternidade, que são os dois principais eixos das relações sociais. Entre os membros de grupos de coorte, amizades íntimas são predominantes. [...] Assim, podemos dizer que as relações sociais tradicionais são encontradas em organizações "modernas" de esportes "ocidentais" que foram introduzidas desde a Restauração Meiji. “

Ainda que estes autores concluam que as relações tradicionais estão presentes nas organizações modernas, é difícil determinar qual a viabilidade de se manter o sistema tradicional japonês nas academias de artes marciais nos dias de hoje. Até que ponto o “tradicionalismo” que viermos a seguir não passa de pura imitação de padrões, sem o correto significado daquele modelo? Assim, o crescimento de estilos menos tradicionais e mais adaptados à vida moderna em tempos mais recentes como o MMA não surpreende, e mesmo o Jiu Jitsu Brasileiro ganha adeptos ao redor do mundo como uma alternativa de arte marcial com uma estrutura menos tradicional.


ありがとうございました。